Lula da Silva é declarado vencedor das eleições brasileiras, enquanto Flávio Bolsonaro rejeita os resultados.

O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, um crítico ferrenho do presidente dos EUA, Donald Trump, foi reeleito no domingo, um resultado que traz alívio aos críticos da crescente influência dos EUA na América Latina .
Com 100% dos votos apurados, o Tribunal Superior Eleitoral anunciou que Lula, prestes a completar 81 anos, tinha uma vantagem de quase 4,4 milhões de votos sobre o adversário Flávio Bolsonaro, o que lhe dava 51,8% do total. Bolsonaro prontamente se recusou a reconhecer a derrota e pediu a anulação do resultado da eleição após uma noite de caos em algumas seções eleitorais, consequência da decisão de última hora de estender a votação por duas horas.
Flávio Bolsonaro é filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, que foi derrotado por Lula na eleição presidencial de 2022.
O triunfo de Lula contraria uma tendência regional de vitórias de candidatos presidenciais de centro-direita aliados a Trump. Significa também que a maior economia da América Latina, com um PIB de 2,6 trilhões de dólares por ano, provavelmente continuará a desafiar as exigências de Trump, apesar da pressão do aumento das tarifas .
Lula afirma que o Brasil 'não é quintal de ninguém'
Um vídeo divulgado pela campanha de Lula mostra o veterano líder comemorando com a primeira-dama Rosângela da Silva e aliados após a confirmação de sua vitória no segundo turno pelo Tribunal Superior Eleitoral. Usando óculos vermelhos em formato de estrela, ele beijou a esposa.
No discurso para seus apoiantes, milhares dos quais se reuniram na principal avenida de São Paulo e na Praça da Cinemalândia, no Rio de Janeiro, Lula expressou sua gratidão ao povo brasileiro e prometeu respeitar todos os brasileiros, independentemente de gênero ou religião. Ele também criticou Bolsonaro.
“Esta foi uma derrota para o negacionismo e as mentiras. Devo confessar que, todas as vezes que assisti a um debate, me senti envergonhado”, disse ele.
Ele também reiterou seu compromisso com a soberania do Brasil.
“Ou a pátria permanece livre, ou morremos pelo Brasil”, disse ele. “Este país não aceitará ser o quintal de ninguém.”
No Rio de Janeiro, carros buzinavam e uma mulher vestida de vermelho — a cor dos apoinates de Lula — gritou “Você perdeu! Chora mais alto!” para quatro homens de amarelo e verde que bebiam cerveja, as cores características de Bolsonaro. Um estrondo enorme ecoou pelas ruas quando o resultado foi confirmado.
Rodrigo Valentim, um empresário de 51 anos e apoiante de Bolsonaro, afirmou que outro governo Lula prejudicaria a economia. Ele citou a reação positiva dos mercados financeiros ao resultado do primeiro turno, quando Bolsonaro derrotou Lula.
“Não entendo como as pessoas podem votar em Lula”, disse, fianalisando com a afirmaçao. “O país está em colapso.”
Lula deverá iniciar seu quarto mandato não consecutivo como presidente em 5 de janeiro de 2027.
Bolsonaro rejeita resultados após confusão nas urnas
O anúncio do Tribunal Eleitoral pôs fim a uma noite de confusão nos locais de votação, depois que o ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal, decidiu, três minutos antes do término previsto da votação, estender o horário de votação por mais duas horas, atendendo a pedidos de ambos os candidatos. O pedido de Lula ocorreu devido a problemas com os ônibus que fazem o transporte para os locais de votação em São Paulo e Salvador, duas cidades que tendem a favorecer o atual presidente. O pedido de Bolsonaro foi devido às fortes chuvas no sul do Brasil, região onde ele é o favorito.
A decisão atrasou a apuração dos votos em duas horas. Não ficou claro quantas seções eleitorais permaneceram abertas após o horário de fechamento previsto. Seções eleitorais em Brasília e no Rio de Janeiro fecharam pouco depois do prazo original das 17h, conforme observaram repórteres da Associated Press.
Flávio Bolsonaro, cujo pai cumpre pena de 27 anos de prisão por tentativa de golpe após perder a eleição presidencial de 2022 para Lula, destacou que Zanin é ex-advogado de Lula e o criticou por "mudar as regras do jogo no meio do jogo".
“É impossível reconhecer os resultados da eleição no contexto desses acontecimentos”, disse ele.
Não está claro se a denúncia de Bolsonaro atingiria o patamar legal necessário para anular os resultados. Bolsonaro também tem o direito de solicitar uma recontagem caso possua provas de fraude, mas isso pode não alterar os resultados.
O presidente do Tribunal Eleitoral, Kassio Nunes Marques, indicado para o Supremo Tribunal Federal pelo ex-presidente Bolsonaro, afirmou que a prorrogação do horário de votação não afetou os resultados.
João Pedro Padua, professor de direito da Universidade Federal Fluminense, afirmou que Bolsonaro pode entrar com uma ação judicial diretamente junto às autoridades eleitorais do país ou ao Supremo Tribunal Federal, pedindo a declaração de nulidade das eleições.
“Mas não há muita base legal para isso”, disse Padua. “A extensão do horário de votação é incomum, mas para invalidar as eleições, o candidato teria que provar que isso afetou a capacidade dos eleitores de expressarem livremente sua vontade. Não parece ter havido nenhum impacto desse tipo.”
Lula superou as preocupações com a segurança e o custo de vida.
Bolsonaro derrotou Lula por mais de 2,2 milhões de votos no primeiro turno das eleições, no início deste mês. A vitória de Lula na noite de domingo marcou a primeira vez, desde o fim da ditadura militar no Brasil, em 1985, que o segundo candidato mais votado no primeiro turno venceu a presidência.
Lula enfrentou uma dura batalha pela reeleição devido a preocupações com o custo de vida e a segurança. Bolsonaro fez de uma abordagem de linha dura contra o crime a pedra angular de sua campanha e prometeu reduzir os preços dos alimentos, enquanto Lula, tentando atrair eleitores indecisos, investiu em incentivos dispendiosos .
Ambos foram atingidos por suspeitas de corrupção envolvendo familiares e aliados, com Bolsonaro implicado em um escândalo de grandes proporções que abala o Brasil. Lula já havia passado mais de um ano na prisão por condenações por corrupção que foram posteriormente anuladas .
Esta provavelmente será a última vitória da carreira política do veterano líder. Lula iniciou sua trajetória política na década de 1970 como líder sindical. Em seguida, ajudou a fundar o Partido dos Trabalhadores, que representou como candidato à presidência três vezes, até finalmente conquistá-la em 2002. Foi reeleito quatro anos depois e sucedido por uma de suas ministras, Dilma Rousseff, em 2010. Ela foi reeleita em 2014, mas sofreu impeachment dois anos depois.
Lula tentou se candidatar novamente à presidência em 2018, mas foi preso em março após ser condenado. Ele foi libertado da prisão depois de 580 dias e teve sua sentença anulada pelo Supremo Tribunal Federal após a polícia encontrar mensagens que mostravam que o juiz que o condenou era parcial. Rapidamente, ele se tornou um dos maiores críticos de Jair Bolsonaro e o derrotou por uma pequena margem nas eleições de 2022.
Desde que perdeu o primeiro turno, Lula reorganizou sua campanha, buscou o apoio dos jovens eleitores, levou milhões de brasileiros às ruas para defender os valores democráticos e seu legado, alimentou o temor de um novo governo Bolsonaro e impulsionou diversas iniciativas governamentais.
Ele se junta a Trump e ao presidente da Nicarágua, Daniel Ortega — todos com 80 anos — como um dos presidentes mais velhos das Américas.
C/ AP
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