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Opiniões

Um Novo Pacto para o Desporto Cabo-Verdiano

Paulo Veiga

Um Novo Pacto para o Desporto Cabo-Verdiano

Difícil criar campeões quando metade do ano é intervalo

Nenhum setor tem a capacidade de unir um país, educar uma geração e projetar uma identidade internacional tão rapidamente como o desporto. Quando existe uma estratégia clara, o desporto torna-se motor de mobilidade social, fonte de emprego, plataforma de diplomacia e espelho do que um país ambiciona ser. Quando não existe, fica reduzido a episódios emocionantes, mas passageiros. É por isso que vale a pena discutir, com profundidade, o papel que o desporto pode e deve desempenhar no futuro de Cabo Verde. E nunca como agora tivemos um contexto tão favorável para iniciar esse debate, onde os sucessos recentes das nossas seleções transformaram uma reflexão que podia parecer abstrata numa urgência concreta, numa oportunidade real de transformar entusiasmo momentâneo em mudança estrutural.
No entanto, para transformar essa oportunidade em algo mais do que inspiração coletiva, é preciso olhar de frente para a forma como o desporto está organizado no país. Os resultados internacionais deram visibilidade ao potencial dos nossos atletas, mas também tornaram impossível ignorar as fragilidades de um sistema que não acompanha a ambição que agora projetamos. O que antes podia ser visto como um detalhe técnico, calendários desajustados, competições demasiado curtas, dependência excessiva das câmaras municipais e estruturas sem profissionalização, tornou-se, de repente, parte central da discussão sobre o futuro do desporto cabo-verdiano. É neste ponto que o entusiasmo se encontra com a responsabilidade: se queremos que os feitos recentes sejam o início de algo maior, precisamos de reconhecer que a base sobre a qual construímos ainda não é sólida o suficiente para sustentar o salto que demos.
Poucos gostam de discutir isto, mas é incontornável. Em praticamente todas as modalidades temos federações, depois dez a doze associações regionais, e um modelo competitivo que não responde às exigências do desporto moderno. Os campeonatos regionais, que deveriam ser motores de desenvolvimento, estendem-se por cinco ou seis meses, enquanto os campeonatos nacionais, supostamente o ponto alto da época, duram pouco mais de um mês. Isto significa que atletas e clubes passam metade do ano à espera, em vez de competir, significa que treinadores não conseguem planear épocas completas, significa que não existe calendário suficiente para criar receitas, atrair patrocinadores ou justificar investimentos. Este sistema, que já teve o seu tempo, hoje bloqueia a evolução do país.
Apesar de tudo isto ser amplamente reconhecido nos bastidores, o país continua a funcionar com um desporto que depende mais da boa vontade e da resiliência dos seus agentes do que de estruturas estáveis. Chegámos a um ponto em que o talento dos atletas e a dedicação dos treinadores já não conseguem compensar a ausência de profissionalização nas federações, nas associações e nos clubes. A gestão permanece, em grande medida, assente no voluntarismo; os calendários são definidos sem visão de longo prazo; e a própria organização das competições carece de critérios técnicos que garantam evolução contínua. Esta informalidade estrutural era tolerável enquanto o país se mantinha longe dos grandes palcos internacionais. Agora, com a visibilidade que conquistámos, tornou-se um obstáculo evidente. Se queremos acompanhar o salto dado dentro do campo, precisamos de um salto equivalente fora dele.
A ginástica ofereceu-nos, há poucos dias, um exemplo dolorosamente claro do que significa manter um sistema desportivo assente no improviso. A atleta Dara Pinto qualificou-se para a final do Guimagym Cup, em Portugal, após uma prestação notável, e acabou impedida de competir porque a federação não renovou a sua licença. Um “lapso administrativo”, como foi assumido, que não apenas frustrou uma carreira jovem em ascensão, como expôs uma realidade que atravessa várias modalidades, com processos básicos que falham, atletas que treinam sem condições mínimas, treinadores que dependem de favores para garantir espaços de treino, federações que comunicam mal e tardiamente, e uma cultura organizativa que normaliza o erro em vez de o prevenir. Este episódio não é exceção, é sintoma. E enquanto continuarmos a tratar o desporto com esta leveza institucional, continuaremos a pedir aos nossos atletas que compitam num mundo que exige profissionalismo absoluto com estruturas que ainda funcionam como se estivéssemos a meio do século passado.
O amadorismo trouxe-nos até aqui com dignidade. O que falta agora é o passo seguinte, transformar a paixão em estrutura. O Mundial será, no fundo, o primeiro grande teste ao nosso sistema. Um torneio desta dimensão exige logística profissional, análise contínua, planeamento de detalhe, rotinas de alto rendimento, recuperação física rigorosa e uma maturidade institucional que não se constrói em três meses. E, no entanto, continuamos a pedir aos nossos jogadores que alternem entre meses de competição e meses de vazio, como se o talento fosse suficiente para compensar a ausência de um ecossistema desportivo funcional. Não é. O talento é o nosso ouro, mas precisa de chão firme onde pousar.
Esta fragilidade estrutural manifesta-se não apenas no calendário competitivo, mas também no modo como o país financia e sustenta as suas modalidades. Em Cabo Verde, o financiamento desportivo resulta de um quadro partilhado de responsabilidades que envolve o Governo central, o Instituto do Desporto e da Juventude e as autarquias locais, enquadrado por um conjunto de instrumentos legais e programáticos. Ainda assim, na prática, são as câmaras municipais que assumem um peso determinante na construção e manutenção das infraestruturas, bem como no apoio direto aos clubes e associações. Este modelo, apesar de ter sido fundamental para garantir a sobrevivência do sistema até hoje, revela limitações evidentes: não assegura previsibilidade financeira, dificulta o planeamento de médio e longo prazo, não cria incentivos claros à profissionalização e continua a afastar investimento privado estruturado. Sem uma articulação mais eficaz entre níveis de governação e uma estratégia nacional coerente, o desporto acaba por depender excessivamente de contextos orçamentais locais, ficando exposto a ciclos políticos e constrangimentos que pouco têm a ver com a ambição que o país projeta no plano desportivo.
Se queremos transformar o desporto num verdadeiro motor de desenvolvimento, então precisamos de ir mais longe. O país necessita de um novo pacto para o desporto, que envolva o Estado central, o setor privado, a diáspora e naturalmente as autarquias, mas já não com estas últimas a suportarem quase sozinhas todo o sistema. A qualificação para o Mundial deu-nos uma visibilidade inédita e uma capacidade de mobilização rara, mas este impulso não se traduzirá em progresso se permanecermos presos a um modelo que não permite profissionalizar quadros, contratar especialistas, planear épocas completas, modernizar clubes ou garantir competições regulares ao longo do ano.
O que está em causa é mais do que conquistas desportivas. É uma questão de desenvolvimento nacional. Cabo Verde tem capital humano, talento, ambição e uma diáspora que abre portas no mundo inteiro. Falta-lhe, contudo, um ecossistema de parcerias que traga para o país a experiência que ainda não possuímos, falta-lhe estabilidade financeira, e falta-lhe a coragem coletiva para enfrentar o que tem de ser mudado: o calendário, as infraestruturas, a gestão das federações, a formação dos quadros e, acima de tudo, a forma como o país pensa o desporto enquanto instrumento de progresso económico, social e diplomático.
Chegou o momento em que precisamos de assumir que não basta celebrar, temos de construir. Podemos continuar a viver da emoção imediata ou podemos transformar este momento numa viragem estrutural. Se fizermos o que é necessário, reformar o calendário, profissionalizar as estruturas, diversificar o financiamento, reforçar as infraestruturas e criar um plano nacional para o desporto, então esta presença no Mundial deixará de ser uma exceção brilhante e passará a ser um ponto de partida.

O país já provou que pode competir com os melhores, agora precisa provar que pode organizar-se como os melhores. A paixão trouxe-nos até aqui, mas será a profissionalização que nos levará para onde nunca estivemos. O desporto cabo-verdiano tem futuro, mas esse futuro só existirá se tivermos a coragem de o construir. Hoje, mais do que nunca, Cabo Verde precisa de um desporto que funcione doze meses por ano, e de uma estrutura capaz de converter feitos extraordinários em evolução permanente.
Como lembrou Jesse Owens, um dos maiores atletas de sempre: “Todos temos sonhos. Mas para que os sonhos se tornem realidade, é preciso muita determinação, dedicação, autodisciplina e esforço.” O desafio do desporto cabo-verdiano é exatamente esse, transformar o sonho em estrutura e a ambição em caminho.

 

 

𝗔 𝗱𝗲𝗺𝗼𝗰𝗿𝗮𝗰𝗶𝗮 𝗲́ 𝘁𝗮𝗺𝗯𝗲́𝗺 𝘂𝗺 𝘀𝗶𝘀𝘁𝗲𝗺𝗮 𝗾𝘂𝗲 𝗮𝗷𝘂𝗱𝗮 𝗲𝘀𝗰𝗿𝘂𝘁𝗶𝗻𝗮𝗿 𝘂𝗺𝗮 𝘀𝗼𝗰𝗶𝗲𝗱𝗮𝗱𝗲 𝗲 𝗰𝗮𝗿𝗮́𝗰𝘁𝗲𝗿 𝗱𝗼𝘀 𝘀𝗲𝘂𝘀 𝗵𝗼𝗺𝗲𝗻𝘀

Lassana Cassama

Jornalista Guine Bissau

𝗔 𝗱𝗲𝗺𝗼𝗰𝗿𝗮𝗰𝗶𝗮 𝗲́ 𝘁𝗮𝗺𝗯𝗲́𝗺 𝘂𝗺 𝘀𝗶𝘀𝘁𝗲𝗺𝗮 𝗾𝘂𝗲 𝗮𝗷𝘂𝗱𝗮 𝗲𝘀𝗰𝗿𝘂𝘁𝗶𝗻𝗮𝗿 𝘂𝗺𝗮 𝘀𝗼𝗰𝗶𝗲𝗱𝗮𝗱𝗲 𝗲 𝗰𝗮𝗿𝗮́𝗰𝘁𝗲𝗿 𝗱𝗼𝘀 𝘀𝗲𝘂𝘀 𝗵𝗼𝗺𝗲𝗻𝘀

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𝗥𝗘𝗙𝗟𝗘𝗫𝗔̃𝗢 - 𝟯𝟮
𝗔 𝗱𝗲𝗺𝗼𝗰𝗿𝗮𝗰𝗶𝗮 𝗲́ 𝘁𝗮𝗺𝗯𝗲́𝗺 𝘂𝗺 𝘀𝗶𝘀𝘁𝗲𝗺𝗮 𝗾𝘂𝗲 𝗮𝗷𝘂𝗱𝗮 𝗲𝘀𝗰𝗿𝘂𝘁𝗶𝗻𝗮𝗿 𝘂𝗺𝗮 𝘀𝗼𝗰𝗶𝗲𝗱𝗮𝗱𝗲 𝗲 𝗰𝗮𝗿𝗮́𝗰𝘁𝗲𝗿 𝗱𝗼𝘀 𝘀𝗲𝘂𝘀 𝗵𝗼𝗺𝗲𝗻𝘀
É verdade que a democracia é um sistema político. Mas, eu diria que vai além. É uma cultura assente na abertura de espírito para ouvir e aceitar o contraditório. Por isso, começa em casa entre o homem, a mulher e os filhos; nas escolas; e/ou nas associações, passando pelas instituições que representamos ou para as quais trabalhamos. 
No entanto, hoje em dia, ela - a democracia -, ajuda-nos a escrutinar e a entender o verdadeiro caráter e/ou a personalidade de um homem numa sociedade aberta, onde a própria democracia é adoptada como um sistema e uma cultura institucional.
Lamentávelmente, e com muita mágoa, diria que o homem guineense está ainda longe de interiorizar e aceitar a democracia como um mecanismo de equilíbrio de poder em casa, na sociedade e no trabalho, onde o debate de ideias é salutar, e onde perder ou ganhar faz parte do próprio jogo democrático. 
Por isso, tenho esperança na abertura, na tolerância e no entendimento entre os guineenses, porquanto a democracia é o sistema que escolhemos para as nossas vidas. Daí, acredito que ainda estamos a tempo de recompor-se e salvar do que resta da nossa democracia e da nossa valiosa e sagrada UNIDADE NACIONAL e da nossa GUINEENDADI. 
Aveiro, 18 de dezembro de 2025
LC

A Degradação do homem guineense é assustadora

Lassana Cassama

Jornalista Guine Bissau

A Degradação do homem guineense é assustadora

Sou guineense e, nesta qualidade, poucas situações me escaparam tanto no passado, quanto no presente. Neste país [na minha Guiné-Bissau] assisti conspirações, intrigas, perseguições, traições, sequestros, torturas, assassinatos, etc. – alguns cenários dos quais também fui vítima – mas, o que tem acontecido nos últimos tempos é profundamente preocupante e assustador. O homem guineense já não se importa com os valores ou princípios. O homem guineense tornou-se num “animal” extremamente perigoso em nome do bem-estar próprio. Todos rogam-se no direito de poder assumir qualquer cargo no Estado, mesmo sabendo [o próprio] que não tem competências, instruções ou preparação para tal. Bom, o problema aqui não se resume apenas a quem é nomeado, mas quem nomeia quem. É a tal vulgarização e impreparação das pessoas que indicam e que são indicadas para os cargos públicos, uma situação que temos vindo a alertar há muito tempo. Temos banalizado a função do Estado ao ponto de ignorar, por completo, o básico: o PERFIL de quem deve ser a nossa dianteira. E, justamente, sobre este particular, já experimentamos o tal paladar e estamos ainda a experimenta-lo. Hoje, o país está a ferro e fogo, por conta das nossas próprias opções em legitimar e dar respaldo às pessoas que praticam atos transgressivos às normas sociais e legais. Estamos tão presos – sinal e prova do Síndrome de Estocolmo – ao ponto de idolatrar os nossos próprios carrascos, que nos têm tirado a paz, o amor e a convivência social que sempre nos caracterizou, enquanto um povo com diferentes religiões, etnias e classes sociais.
A política é uma ciência e para o bem. Em consequência, a governação é feita de visão, estratégia e planificação. Daí que o improviso, o impulso e a emoção não se alinham com uma boa governação. Porém, infelizmente, na minha Guiné-Bissau, a política e a governação tornaram-se no ninho privilegiado para os delinquentes, incompetentes, preguiçosos e arruaceiros. Os considerados "Matchus", quando, na verdade, são ladrões.
Em face desta realidade – que nos envergonha – algo tem de ser feito. A sociedade precisa ser sensibilizada e mobilizada para censurar, de forma incisiva, gente que só consegue navegar nestas águas turvas à margem das regras. Os chamados “ESTRATEGAS E MINISTROS DE TRANSIÇÂO”. São pessoas desprezíveis e, por isso, devem ser renegadas e não premiadas pela sociedade. Pois, seria a única forma de as desmobilizar, deixando o país RESPIRAR um pouco. É...o país precisa RESPIRAR. 
Aveiro, 30 de novembro de 2025
LC
 

REFLEXÃO - 26 Se um dia... não terei problema em confiscar todos os bens adquiridos neste país através de corrupção.

Lassana Cassama

Jornalista Guine Bissau

REFLEXÃO - 26 Se um dia... não terei problema em confiscar todos os bens adquiridos neste país através de corrupção.

Há muito tempo que não tenho engolido a normalização do roubo e/ou furto do dinheiro de Estado por parte de distintos Agentes da Administração Pública guineense. Quando digo agentes da Administração Pública, estou a falar, por exemplo, de um Presidente da República, de um Primeiro-ministro, de um Ministro, de um Secretário de Estado, de um Director-geral e outros titulares de instituições estatais. 
Não é de hoje que estamos a assistir esta febre de corrupção no aparelho de Estado, aceite e normalizada pela própria sociedade, considerando os desavergonhados corruptos de "Matchus". "Matchus" que não passam de bandidos, disfarçados em gente-fina que roubam seringas nos hospitais, gizes nas escolas, a honra e dignidade das famílias. São estes Agentes que nos têm manipulado, roubando a nossa esperança e o nosso desejado e merecido desenvolvimento. São estes Agentes que nos roubam e depois aparecem como bons samaritanos nas nossas mais profundas aflições e necessidades. São eles que estão a destruir o nosso tecido social e económico com patrocínios mascarados de festas "batucadas" e eventos, que não passam de meras distrações e que nada avalizam a requerida e importante re/construção da Nação guineense, se não incentivar ainda mais a delinquência e preocupante prostituição das nossas crianças e jovens. São estes mesmos Agentes que nos roubam e constroem casas e outros investimentos privados com o nosso dinheiro, considerando-se ricos. Não são, não. São ladrões. Simples, quanto isso. Ladrões que só conseguem viver e sustentar os seus vícios, estando e sugando a Administração Pública, pois sozinhos não conseguem produzir nada. 
Um dia, estes Agentes têm de ser julgados, condenados e expurgados da Administração estatal, pois são pestes. Por isso, a única cura é confina-los a uma ilha deserta numa prisão, sem recuperação, declarando-os traidores da pátria. É o que merecem e assim será.
Anote!
P.S. São nuas e cruas algumas palavras por mim proferidas, apenas quis chamar as coisas pelo nome sem filtros. 
Bissau, 23 de Junho de 2025
LC
 

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Arranque da prova Sprint Praia 2024,

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Conta com a participação de 36 atletas das diferentes ilhas, menos a Brava.

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